Sol

Os dermatologistas que me desculpem.

Tomar sol é quase um ato divino.

Sentir aqueles raios solares envolvendo e aquecendo o corpo numa espreguiçadeira ou num parque pela manhã: sempre amei.

Primeiro, vieram os bronzeadores — químicos, artesanais e até “naturais” — que causavam tragédias agudas e para a vida inteira na pele; com sorte, davam aquela cor dourada.

A Hipoglós era usada nos rostos desavisados com queimaduras de primeiro grau.

Depois, vieram os protetores solares, cada vez mais potentes; e agora, estamos na era da popular vitamina D, do insulfilme e do “Podendo, evite o sol!”.

Meus filhos, quando bebês, tinham hora marcada para o banho de sol, e era um encantamento só, quase um ritual.

Saíamos no início da manhã.

Abaixávamos a capota do carrinho e íamos tirando as roupinhas, expondo seus corpinhos numa dança fantástica… E o bebê ali, encolhia as perninhas, brincava e até tomava água!

Era um gozo só.

Momento mágico, principalmente quando eram mãe e filho.

Ficavam ali uns minutinhos e voltavam para casa, ela, a mãe, satisfeita de ter suprido com maestria a necessidade solar do seu bebê.

Agora, me parece que não é mais assim: mãe e filho se contentam com as gotinhas diárias de D.

O Rei Sol vem perdendo seu reinado.

Enfim…

Inconformada com essa proibição quase absoluta de raios solares, tentei em vão convencer uma amiga dermatologista de que, dentro da minha rotina de autocuidado, estava incluído tomar sol aos sábados, de 8 às 9, numa confortável espreguiçadeira e com um bom livro, seguido de braçadas para garantir um “cardio”, levando de brinde uma corzinha dourada leve e, não menos importante, a D, tão cultuada nos últimos tempos.

Ela, a amiga, fechou o semblante e me repreendeu dizendo que isso não era um bom hábito e que, afinal, eu também era médica e não ficava bem…

Tentei em vão dissuadi-la… E aí vieram os basocelulares e até o temido e cruel melanoma, sem falar do envelhecimento da pele…

Literalmente rendida… Pensando e refletindo… Percebi

quanta coisa perdeu a majestade e o sentido, nesse período planetário marcado por mudanças intensas e rápidas, com o surgimento de novos hábitos, conhecimentos, mundo digital, IAs e até reborns que podem tomar sol, com suas equivocadas e ávidas mães!

Assim, o jeito é colocar minha poltrona na vertical, manter meu cinto afivelado, usar protetor solar (de preferência com cor), fugir do sol

e confiar no Piloto!!!

Avatar de Lúcia Fenelon

Lúcia Fenelon

Médica cardiologista, poetisa, observadora de pássaros e da natureza🌷🦆

Todos os Poemas